24.2.08

Série "Os 30 são os novos 50"

Quando compramos um creme anti-rugas e, uma semana depois, já sentimos os efeitos: uma linha de borbulhas a nascer debaixo dos olhos.

17.2.08

Série "Os 30 são os novos 50"

Quando as coisas que dantes nos davam ataques de riso agora nos dão ataques de pânico.

Série "Os 30 são os novos 50"

Quando se começa a desconfiar da excentricidade que é a frase ao contrário.

7.2.08

o cabo dos trabalhos

Na SIC Mulher há um programa que consiste em ir a casa das pessoas, sem elas saberem, mudar tudo e redecorar e depois apanhar as pessoas à saída do elevador, espetar-lhes com uma venda nos olhos e surpreende-las com salas, cozinhas e quartos irreconhecíveis. Diz que mudam vidas. E eu fico a olhar para aquilo tudo, estupefacta e impaciente, a imaginar quando é que inventam um Querido Arrumei a Casa.

6.2.08

classificados

Arranja-me um emprego
Arranja-me um emprego, pode ser na tua empresa, com certeza
Que eu dava conta do recado e pra ti era um sossego

Se meto os pés para dentro, a partir de agora
Eu meto-os para fora
Se dizia o que penso, eu posso estar atento
E pensar para dentro
Se queres que seja duro, muito bem eu serei duro
Se queres que seja doce, serei doce, ai isso juro
Eu quero é ser o tal
E como o tal reconhecido
Assim, digo-te ao ouvido

Arranja-me um emprego
Arranja-me um emprego, pode ser na tua empresa, com certeza
Que eu dava conta do recado e pra ti era um sossego

2.2.08

Entre nós

uma terra de pousio.

10.1.08

Dig, Lazarus, Dig!

Estava só à espera que chegasse a tua prenda para enviar os parabéns. Chegou.


3.1.08

superstições

A falta de sal à entrada estava compensada com o pé-direito da casa.

Atenderemos a sua chamada quando possível

Your call is on hold............ Your call is on hold................

28.12.07

Lição número um para pontuar

Repetidos, os pontos finais tornam-se reticências.
Terá que ser apenas um. Ponto

13.12.07

despedimento com justa causa

Torna-se incompetente na vida.

1.12.07

Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas, os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projectos...

Um dia deu-me para dizer, como na música, serás o meu amor, serás a minha paz. Podia ter-me dado para comer uma peça de fruta. Sempre me teria feito melhor.

26.11.07

A mestre-sala

Se fechar os olhos, é como se os abrisse. Sentada no chão de tábua corrida, o Morelenbaum/Sakamoto a misturar a bossa nova, cuidado com a cinza no tapete, esta noite já se entornou uma lata de cerveja e só há mais duas no frigorífico, faço contas às horas e percebo que terei de ir de manhã rapidamente a casa tomar um banho antes do trabalho. Desceste para ir buscar o papel de arroz e a roliça. No seu altar, o Mefistófeles admira o espectáculo das 37 velas acesas. Alguém anda com uma vassoura de um lado para o outro e alguém já se apagou no sofá. Na tua sala, todos temos o nosso canto preferido para adormecer até ao dia seguinte, o nosso espaço com sentido onde acabamos as noites quando já não há nada aberto para o teu “vá lá, só mais uma cerveja” e umas entrelinhas de conversa. Lá em baixo, na cozinha cinzenta, jantou-se as melhores torradinhas e assim inventámos uma nova medida de contar afectos. Qual é o jogo de hoje no terraço – e, neste momento, naquela direcção, está… a… Do outro lado do rio, há uns senhores ainda acordados, as estrelas, mais rápidas que os barcos, passam com os aviões sobre o panteão aceso. Um ano depois, se fechar os olhos, é como se os abrisse.

Na esplanada, alguém continuou a beber a última green na única mesa ainda por arrumar. Na porta inox em frente ao indiano, alguém comprou pão acabado de sair da fornalha quente das seis da manhã. No terraço, alguém ficou acordado a ver as luzes apagarem-se, uma a uma, do outro lado do rio. A esplanada, o terraço e o rio continuam na fatalidade dos dias que se seguem. Mas já não o fazem, rima a rima, na magia do teu poema. Porque é só teu. Como sempre, como dantes.

(em construção)

25.10.07

E agora para algo blogo-kitsch

Há coisas que realmente me irritam. No local de onde às vezes saio, já sem nunca me cruzar com um laivo de sol, e ainda bem porque eu gosto é da sombra, deram-se ordens para acabar com aquele programa onde pululam janelas com pessoas a falar lá dentro, uma coisa escabrosa semelhante a um spa para relaxar a produtividade. A ordem, mal executada como convém e não fere tradições, veio restabelecer a organização laboral e resultou no seguinte acto de justiça social: uns desligaram-se do mundo e estão agora muito mais concentrados em não fazer nada, outros fizeram uns contactos a puxar para o favor pessoal reavendo a versão actualizada e outros ainda não receberam tal euromilhões e foram condenados a usar a versão ainda-o-messenger-não-era-o-messenger-e-não-havia-bonequinhos. Há coisas que me irritam. Levaram-nos o tinto e deixaram a gasosa rosé.

15.10.07

27.9.07

O encontro da medida

Está no número de 'adoro-te' ou no número de 'odeio-te'?

A resposta acompanha o ponteiro torto da balança. Afasta-se do fiel, num impulso para a esquerda. Faz uma pausa no movimento e fica vencida do lado direito, junto a um número que tinha partido em corrida para o campeonato das contas de somar e dividir. Como se contam os que estão virados do avesso?

2.9.07

samba sobre o infinito

26.8.07

chuva

Estava escolhida a primeira palavra. E seria a do cheiro a madeira molhada de ruas quentes e cais de geada.

9.8.07

Isto sim, é uma prateleira dourada

8.8.07

Pensar nada

Perguntou-me em que pensava. Disse-lhe que não pensava em nada. "Não pensas em nada?", quis confirmar. E aí hesitei a resposta, estranhando o lugar-comum que nunca me fora incómodo: é que um não sobre nada dá sempre alguma coisa. Quando se nega o nada sai tudo ao contrário. Quis então dizer que não, não era que não pensasse em nada, mas antes que sim, pensava em nada. Baralhei-me em silêncio com a nova contradição: dissesse eu que pensava em nada e a simples presença de uma preposição já me traía o sentido. Teria por isso de dizer simplesmente que pensava nada, evitando dizer onde e que quê, que não, que nada, que isso é já pensar alguma coisa. Enliei-me de novo, perdido do nada, cheio de tudo isto em que nada se lê. Acabei respondendo que não, duvidando já da minha sanidade. E voltei a não pensar em nada.

2.8.07

ficaremos assim, guardados numa prateleira dourada

24.7.07

última hora

Este blog está a precisar de palavras novas.

(Aceitam-se sugestões na caixa de comentários)

17.7.07

Às vezes...

... dá-se um pontapé numa pedra e há uma montanha inteira que se move.

11.7.07

E então: como vais?

Andando. Em frente. Que é, afinal, apenas o sentido para onde estamos virados.

...

Que há-de ser da mais longa carta
que se abriu, peito alvoroçado
devolver-se-á: «endereço errado?»

10.7.07

O que quererá isso dizer?

E quando os nossos amigos não nos convidam para jantar?...

9.7.07

E já que falamos do Sérgio Godinho...

Que há-de ser da longa batalha
que nos fez partir à aventura?
que será, que foi
quanto é, quanto dura?

Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nós.

22.6.07

O que fazer quando tudo arde

Lembrar que nascemos para ser felizes, como diz alguém como ninguém. E às vezes somos mesmo. O resto é apenas a vida.

18.6.07

Tantas vezes fui à guerra
que só sei é guerrear
eu gostava um destes dias
de ter tempo de amar

Tenho pistolas de prata
tenho uma bala dourada
se não tenho o teu amor
não me servem para nada

Nem aos deuses nem à morte
peço perdão do que fiz
já suporto bem a dor
já só quero é ser feliz

Sérgio Godinho

1.6.07

31.5.07

Desnorte esquizofrénico

Se me encontro vou dizer-me das boas.

19.5.07

O coração não bate. Apanha.

25.4.07

Estamos a chegar


(MC)

23.4.07

Pronto, tá bem, era pé... Já podes voltar?

19.4.07

...câmbio, escuiito

Nunca partilhámos, eu e vocês, a vossa morte. O verbo morrer não se conjuga na segunda pessoa. Não há diálogos com um “olha, quando tu morreste, lembras-te?”. Ou “como é que tens passado desde que morreste?”. E “já estás melhor do avião que te caiu?”
Desde Novembro que não sei nada de vocês. Desde Novembro, nenhum de vocês sabe nada de mim. Agora não querem saber de mim, é? Sim, porque a malta continua a viver, ou achavam que vocês morriam e o mundo acabava? Ah, pois não. Não há quem pare o mundo.
E, como ele não pára, eu tenho coisas para vos contar. De novidades, já enchia uma edição inteira, com várias boas chamadas de primeira página. Uma era para o obituário. Agora com as fotos das caras da notícia.
Por exemplo, eu alguma vez já vos disse que vocês me morreram? E logo os dois de uma vez? Já falei disto com dezenas de pessoas, toda a gente já sabe, menos vocês. E continuo a não saber o que é que têm a dizer sobre o assunto. E faz-me falta. Ouvir-vos.

16.4.07

Regresso a ti. Um pouco menos longe da paz

13.4.07

Il mondo intero e la metafora di qualcosa

27.3.07

sem título

E ele disse - Se fugires, eu vou-te buscar.
E ela pensou - Isso não vai acontecer, tu vais fugir primeiro. E eu, será que te vou buscar?

21.3.07

Alergias e dores de cotovelo. Alvísseras! Chegou a Primavera.

19.3.07

Confissão de domingo (já muito ao fim do dia, mais em segunda que domingo)

Continuo (eu e) a casa por arrumar.

7.3.07

Estou aqui a olhar para a janela. A falta que me fazes tem quilómetros. Tantos que continua a dar voltas ao quarteirão. Ainda agora passou a correr, contornou o Marquês de Pombal e já está outra vez debaixo da minha janela. Não são quilómetros. São milhares de milhas.
Hoje cedi. Nem sempre nos conseguimos enganar. Hoje não sou nada, apenas atleta nesta maratona.

22.2.07

do silêncio

Não, não morremos todos. 75% estão apenas em hibernação.

7.2.07

O meu contributo para tornar o dia mais feliz

3.2.07

3/2

Parabéns, meu querido viajante.


O barco, meu coração não aguenta
Tanta tormenta, alegria
Meu coração não contenta
O dia, o marco, meu coração,
o porto, não

Navegar é preciso,
viver não é preciso

O barco, noite no céu tão bonito
Sorriso solto perdido Horizonte,
madrugada
O riso, o arco,
da madrugada
O porto, nada

Navegar é preciso,
viver não é preciso

O barco, o automóvel brilhante
O trilho solto, o barulho
Do meu dente em tua veia
O sangue, o charco,
barulho lento
O porto silêncio

Navegar é preciso,
viver não é preciso


Os Argonautas, Caetano Veloso

(a música segue dentro de momentos, depois de resolvido o problema técnico)

23.1.07

A propósito de nada

You can never hold back spring
You can be sure that I will never
Stop believing
The blushing rose will climb
Spring ahead or fall behind
Winter dreams the same dream
Every time

You can never hold back spring
Even though you've lost your way
The world keeps dreaming of spring
So close your eyes
Open you heart
To one who's dreaming of you
You can never hold back spring
Baby remember everything that spring
Can bring
You can never hold back spring

Tom Waits, Orphans

21.1.07

Corrida de meio-fundo

Às vezes, quando paro, sinto nitidamente que estou a fugir.

20.1.07

24 do 11

Estamos aqui a pensar. O mundo ficou como o urânio. Empobrecido.

17.1.07

O tempo vai peneirando a memória. Resta apenas o que se quer que fique, mesmo que a gente o deseje num segredo mal assumido. Assentou a poeira das palavras mal medidas, sossegaram os génios dos gestos excessivos, calou-se o ruído dos desencontros. Sobras perfeita, arestas e tudo. Somos nós quem te reinventa como nunca foste. Ou como nunca te soubemos ver.

Como dantes. Como sempre

(MC)


Continua a ser demasiada areia para a minha autocaravana.

15.1.07

24 do 11

A vida continua. O problema é esse.

10.1.07

Saúdo-te com as tuas palavras. Quase parece que as escreveste para serem reeditadas num dia assim. É a única ideia capaz de me sossegar nestes tempos de destroços, neste dia de velas apagadas. Pediremos desejos por ti. Vale a pena pedir desejos. Por ti. Por nós, sem ti.




Debaixo dos pés, águas turbulentas. Cinzentas. Contra o esquecimento, relembrar que as nossas estradas são braços do mesmo rio. Caminhámos sobre as águas. Ludibriámos os sentidos. Guardámos testemunhos desses passos de magia. Contra o esquecimento.

Celta

Tenho dificuldade em lhes explicar - esta coisa de querer mudar de assunto sem me mudar de ti. Entende que não me quero despedir. Fintar o lugar da tua ausência, enganar as horas a que me faltas. Não aceito menos que a tua memória por inteiro, nem perdoo por menos que uma razão impossível. Queria apenas que a saudade me doesse em paz. Ao menos hoje. Parabéns Jóia. É o teu dia. Será sempre o teu dia.

8.1.07

The departed

Ainda não te contei que finalmente lá arranjei coragem de ir ver o novo Scorsese. Já foi há umas semanas, mas depois do medo de ver, veio-me o medo de escrever. Não fui ver o Scorsese, fui ver-te a ti, meu caro. E foi o que se esperava. Logo às primeiras cenas, na revista de comics do Wolverine dentro da mochila de uma das personagens. Scorsese e Marvel, prometia. A personagem era apenas uma criança e ainda não se tinha tornado no polícia-bom-e-polícia-mau-e-as-duas-coisas-e-nenhuma-delas-ao-mesmo-tempo do filme. E continha o mundo na banda desenhada. Passava-se isto ainda quando a criança era criança. E não queria partir se estava apenas a chegar. E no cimo de cada montanha não desejava uma montanha mais alta. E em cada cidade não desejava uma cidade maior. Era naquele tempo em que as montanhas e as cidades são demasiado grandes e o mundo é ao mesmo tempo tão grande e tão pequeno que só as histórias de quadradinhos podem conter escala tão esquizofrénica. Depois o mundo muda e somos nós que ficamos grandes e pequenos numa escala esquizofrénica que não cabe nem nas histórias aos quadradinhos. Mas elas lá ficam, o refúgio seguro, o descanso da viagem interminável em busca do spot perfeito. E não há mundo que nos sossegue. A não ser a estrada para andar, a gente a continuar. As emoções para viver, o prazer. Que raio de mania de descobrir o mundo. Tinha mesmo que ser até ao fim do mundo?
Eu cá fiquei. Faz sentido, sou aquela que tem medo da partida.

5.1.07

Chile Out

Decidi que isto é um canto e não um lamento, já disse o que sinto agora façamos o ponto e mudemos de assunto. Vou à procura de tema. Volto já.

ano novo II

Os melhores momentos, por definição, estão sempre num pretérito perfeito. Porque só depois de vividos, saboreados e sufragados podem ser eleitos. O medo nasce do condicional, a incerteza do futuro. A solução, estou em crer, está no gerúndio.

4.1.07

Do baú

Foi a sétima palavra mais difícil de traduzir, de acordo com uma votação de mil linguistas feita pela agência inglesa de tradução Today Translation.

Segundo a directora da Today Translations, Jurga Ziliskiene, embora as definições sejam aparentemente precisas, o problema para o tradutor é reflectir, com outras palavras, as referências à cultura local que os vocábulos originais carregam.

Lista completa das dez palavras consideradas de mais difícil tradução:

1. Ilunga (tshiluba) - uma pessoa que está disposta a perdoar qualquer maltrato pela primeira vez, a tolerar o mesmo pela segunda vez, mas nunca pela terceira vez.
2. Shlimazl (ídiche) - uma pessoa cronicamente sem sorte
3. Radioukacz (polonês) - pessoa que trabalhou como telegrafista para os movimentos de resistência no domínio soviético nos países da antiga Cortina de Ferro
4. Naa (japonês) - palavra usada apenas em uma região do país para enfatizar declarações ou concordar com alguém
5. Altahmam (árabe) - um tipo de tristeza profunda
6. Gezellig (holandês) - Aconchegante
7. Saudade
8. Selathirupavar (tâmil, língua falada no sul da Índia) - palavra usada para definir um certo tipo de ausência não-autorizada frente a deveres
9. Pochemuchka (russo) - uma pessoa que faz perguntas a mais
10. Klloshar (albanês) - perdedor

2.1.07

ano novo

Às vezes tenho medo, mesmo mesmo medo, que os melhores momentos já tenham sido.

29.12.06

De tanto a observar, já a vi como imagem gráfica. Se fosse engolida por uma jibóia, não seria um elefante mas um horizonte de montanha que sobe, desce em planalto, sobe a pique, desce a pique, sobe, desce e termina num sibilado “e”.
De tanto a repetir, já a ouvi como puzzle decomposto em letras e sílabas, aliteração de “as” e “dês” feita por lábios que se afastam, língua que se comprime no céu da boca e dentes que fecham o som.
Já a senti como pontada seca contra o peito, choque eléctrico tão ao de leve que só por um bocadinho assim é que não acende as luzes dos prédios num raio de três quarteirões e ainda consegue injectar energia no rés-do-chão da primeira casa da rua a seguir.
Pior é quando a vejo como agora, assim calma, em passeio de domingo pelas ruas da memória, os raios de sol a aquecerem as costas, os meio sorrisos, as conversas esticadas em bancos de jardim. E depois abrir os olhos, e pôr-se o frio, o nevoeiro e o silêncio cego das nuvens.

Saudade

25.12.06

Imagem do Natal, um mês depois

22.12.06

Que faço eu às saudades?

A Sofia foi viver há uns tempos para Macau. Ontem, sem grandes palavras, condensei todas as saudades num abraço que a ia sufocando. Ontem, pela primeira vez, a minha pele tomou consciência de que não nos voltaremos a abraçar. Nunca mais.

15.12.06



Ontem sonhei com os meus mortos. Mortos. Como, se só os penso vivos?

13.12.06

12.12.06

Quanto tempo demora o nunca mais? Uma semana? Um mês? Um ano? Eu aguento, juro que aguento. Só preciso de saber quanto tempo demora.

8.12.06

O desmentido chegou, finalmente. Afinal, foi uma tal de Maria João Margarido. Não foste tu. Ficarás ainda alegre por saber que também a notícia da morte dos pais do César - alvísseras aos Céus! -, foi um manifesto exagero. O Sol diz que errou. É verdade que sim. Hoje como há uma semana, errou. E errou até no erro com que justificou o seu acto de contrição. Não percebeu que o mau gosto foi bem mais grave que a incompetência.

7.12.06

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco

6.12.06




O Miguel mandou isto. E um abraço

5.12.06

Horários de chegada

Palmilhei hora a hora as chegadas previstas para hoje. Estavam previstos para hoje. Agora sei. Não se confirmaram. E agora que sei?

4.12.06

Sol

Dizem que eram perseguidos pela desgraça. É verdade. Somos todos. Todas as semanas. Pontualmente aos sábados, lá está ela nas bancas.

3.12.06

Epitáfio escolhido

Um dia alguém numa grande cidade longínqua dirá que morri
di-lo-á certamente com pena mas sem o alívio que eu próprio decerto senti
primeiro ao solucionar de vez esse problema de respiração que a vida é
desde a convulsão da criança que a meio do copo deixou ir leite para a traqueia
até à instantânea atrapalhação do mergulhador a quem de súbito falta o ar comprimido
só dispõe da reserva e lhe faltava tanto que ver no fundo sonhador do mar
depois senti alívio porque às vezes a meio por exemplo da aragem na face
eu pensava na morte como problema metafísico a resolver pelo menos com higiene
se não com dignidade com acerto como mais um problema à medida do homem
Eu estava do lado dos vivos estou do lado dos mortos
o grande problema era saber se me doía ou se não me doía
agora nem sei se me doeu ou não ou fui um mero espectáculo de mau gosto
para a única pessoa encarregada de me ajudar nesse momento
Ninguém a princípio terá sabido que eu morrera só minha
mulher avisada de longe virá e me porá a mão sobre a testa
os demais não não disponho do olhar para me defender
o tempo depressa se passa são trâmites legais até me terem deixado
debaixo do chão bem debaixo do chão sem frases lidas
ou gravadas sem sentimento nenhum
Uns dias depois um pequeno grupo junto a uma grande janela
olhará a neblina da manhã de janeiro
e terá mãos que eu tive para os meus problemas de vivos
Onde eu estive sobre uma mesa com uma perna cruzada
suaves começarão a suceder-se e acumular-se os dias
com cartas revistas linguísticas ou livros adormecidos
despertos apenas no momento fugaz da leitura
A vida será indistinta virá até nós como árvores
rodará em volta como um lençol até cobrir-nos os ombros
Falareis de mim não posso impedir que faleis de mim
mas já nada disso me pesa como o simples facto de ter sido vosso amigo
Estou só para sempre e só desde sempre
mas antes por direito de opção. Agora não
Deixaram-me aqui doutor em tantas e tão grandes tristezas portuguesas
e durmo o sono das coisas convivo com minerais preparo a minha juventude definitiva
Era como eu esperava mas não posso dizer-vos nada
pois tendes ainda o problema e a cara da pessoa viva

Consolação, 12-30 dia 15/IV/74
Ruy Belo

Celta

1.12.06

Tentativa falhada de reproduzir o gato-cabide




Vamos fazer um concurso. Quem consegue aproximar-se mais do original? Mandem os vossos desenhos para este apartado.

30.11.06




"Estamos bem, esperamos por todos mas não tenham pressa. P.S. Tragam roupa quentinha."

Miguel

O Inverno em Pequim

Porque mais não posso, resta o principio.
- ... Palavras?
- Sim, mas das que beijam.

Li Ya

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes

A. O'Neil

Esmeraram-se nos efeitos especiais, avião e montanha e tudo, deve ter ficado uma pipa de massa, bem diziam vocês que a viagem estava a ficar caríssima. Mas devo dizer que é um filme de acção de péssimo gosto, muito fogo de artifício, lindos cenários, mas o argumento é de fugir. Planos cortados, erros de racord, francamente... Que raio de realizador arranjaram? O Shyamalan não é, que já passaram tantas horas e ainda não se deu twist nenhum, daqueles bons que surpreendem toda a gente até vocês os dois que têm a mania que são espertos e descobrem tudo às primeiras cenas. Está a ser um falhanço de público, não há uma única pessoa que esteja a gostar de ver. Ouviram? Nenhuma.

Pronto, isto é um exemplo das 50 mil merdas que por esta altura me andam a passar pela cabeça. Triste, ah?

Acontece quando estou no silêncio da casa onde nunca foste, quando percorro sozinho o caminho que nunca andaste, quando aqui chego àquela hora solitária a que nunca estavas. Curioso. É precisamente nos lugares onde nunca te vi que a tua ausência mais me pesa.

Não vou escrever uma linha. Não quero embelezar a tua morte. A tua morte é feia, é estúpida, é canalha, é abjecta, mete nojo, é uma aberração de duas cabeças, dentes podres e mau hálito. Não há poesia na tua morte. A tua morte não existe. É uma daquelas coisas que os jornalistas inventam para encher páginas de jornais.

E diz aí ao teu amiguinho do lado que agora é que foi de vez. Estou mesmo muito chateada com ele.

29.11.06

(Vá, vamos lá embora que a gaja diz que quer falar contigo a sós e ali ao lado está uma multidão. Aqui também começa a estar, mas sempre é mais abrigadinho)



No lugar dos nossos recados, há agora um portal. Parece que vão à tua procura. Tens a audiência que nunca tiveste e que o patrão JPN sempre reclamou. Aqui também se respira o mesmo ar, e achei que podia deixar-te um primeiro recadinho. Temos uma conversa para ter. Temos, temos. Prepara-te bem, que vai demorar. E arranja-me umas almofadas, que, como sabes, tenho aquele problema. Faz-me um chá, que eu não sou como vocês, que bebem barris de cerveja e não engordam um grama. E depois vais-me explicar como é que chegas à minha vida para mexer em tudo, mexes, e depois vais viver para a Patagónia assim, sem deixar sequer uma morada. Ao menos tens vista para o rio?

Intérprete

A gente escreve-te, noticia-te, edita-te o melhor que pode e nada. Resistes. Tu que tantas vezes me obrigaste a condensar o mundo em duas linhas tens a suprema lata de resistir, de dizer que não, que não cabes num lead, que nunca te compreenderia com cinco perguntas apenas, que a pirâmide da tua história chega ao céu e jamais se poderia virar do avesso. Eu bem te dizia que o Chico tinha razão: a dor da gente não sai no jornal.

28.11.06

Isto é só para não ficares já para aí armada em parva porque não te escrevi nada para além de três linhas. E vou-te já dizer que no sábado te menti. Disse que ia regar as plantas à tarde, que não te preocupasses com as infiltrações porque já estava sol. Não fui lá no sábado e não voltei a pôr lá os pés e o sol já se foi e a chuva já voltou e não faço a mínima ideia de como estão as infiltrações e se calhar por esta altura as plantinhas já bebiam qualquer coisa. Ontem recebi o relatório a confirmar que a minha mensagem estava pendente e não foi entregue. Vá, ri-te lá, goza comigo e diz que eu nunca soube mentir.
Por aqui as coisas estão como tu imaginas, mas não exijas muito de mim, não me peças que te conte tudo, porque tu é que foste ver o mundo e nós é que estamos para aqui à espera de notícias e já andamos a desesperar.
Bom, isto tudo é só para te avisar que ainda não escrevi nada sobre ti, mas tenho uma boa desculpa. Por mais que tente, e vou tentar muitas vezes, eu não te consigo escrever.
O Miguel diz que te estás a rir muito de nós. E eu ando para aqui a pensar em coisas parvas, a ver se adio até não mais poder as saudades de me rir contigo. E elas já começaram a chegar. Enervante criatura.

Eu espero

Espero por ti, tardas. Cruzo todas as fontes à espera de um desmentido que não chega. Edito-te. Eu a ti, para ser diferente. Tu notícia, uma e outra vez esse meio sorriso repetido. Revolvo-te as gavetas e os poemas e ainda não te acho. Embrulho o teu atraso numa piada de mau gosto, rio-me de ti. Tenho de me rir de ti. Lembrar que os porcos podem ser cor de rosa, ter asas e voar em círculos atrás do rabo. Que é possível cavar uma multidão com um vómito. Ver um avião dar volta ao mundo sem sair do terraço. Despachas-te? Ni! Eu espero. Como sempre, eu quem espera. Revolvo-te as fotos, não me encontro. Há o Gabriel (já tem sobrancelhas, sabes?) Mas de mim nada. Não restou prova. Dos telhados, das portas entreabertas. Vens ou quê? Deixa lá, eu espero. Vou matando o tempo que já não há. Cuidando das raparigas, para me esquecer. Espero à tua porta. Fico. Cedo a uma música manhosa. Vens? Prometo chamar Jóia a mais ninguém.

Post a quatro mãos


Já disse todas as piadas parvas que me poderiam ocorrer e tu ainda não voltaste. ainda não voltaste. sim. sou eu.

O eu aqui de cima tem uma coisa para te dizer: qualquer coisa a ver com cortes de cabelo.

À Janela

Estávamos lá, duas, e tu também estiveste. Tirámos as duas o telemóvel, olhámos uma para a outra, quem liga à Zé?. E ficámos as três a ouvir, tu não estavas ali, mas estavas lá do outro lado, connosco. À Janela, lembras-te? Como agora, estamos aqui, e tu estás aí do outro lado. Já ligamos.

27.11.06

Hoje vens cá jantar, arrumo-me a mim e à casa num instantinho, faço o peixe no forno, tu vais repetir e dizer que está quase tão bom como os teus cogumelos. Sirvo-te da melhor parte, aquela que tu dizes que é deliciosa e comes de olhos fechados. Podes deter-te pelo meu decote, arrancar-me as calças como te apetecer. Deixas-te escorrer pelo meu peito, ris-te que não quando te pergunto se estou gorda, abraças-me, fazes uma piada de um filme que eu vi e não me lembro, olhas para o poster do Vertigo e perguntas quando vamos à loja comprar o Taxi Driver. Hoje repetimos e não precisas de ficar cá para de manhã.
Podemos conversar apenas, ultimamente temo-lo feito tão bem. Apertamos as mãos e fingimos que por ali não passam correntes químicas, e às vezes já não passam mesmo, falamos de taxas de juro e do teu carro novo, eu fumo um cigarro, tu reviras os olhos e perguntas quando é que eu largo aquilo, falas do polícia que os búzios me destinaram e eu contra-ataco e pergunto pela mulher de ancas largas e peito farto. Rimos. Tu apertas-me o nariz e entrelaçamos braços. Foi assim quando almoçámos no outro dia. Jantamos hoje?

- Éme Jóta Éme!
- Siíee …
- Verdade ou consequência?

3.11.06

Dawn

Foi no cais da manhã, 58 acima, no caminho das horas ao contrário, que os olhos se fecharam à noite.

28.9.06

etimologia

Do latim urgentia, necessidade imediata, pressa, aperto. O que não admite delongas, iminente, indispensável.

27.9.06

Previsão meteorológica

Quando voltares, eu já me fui embora.

20.9.06

Um saco

E, no entanto, ele não se moveu.

14.9.06

Há sempre uma epifania à sua espera na blogosfera

Instruções para chorar

Deixando de lado os motivos, apreciemos a maneira correcta de chorar, entendido como algo que não se aproxima do escândalo, nem que insulta o sorriso com a sua paralela e torpe semelhança. O choro médio e ordinário consiste numa contracção geral do rosto e num som espasmódico, acompanhado de lágrimas e soluços, estes últimos no fim, uma vez que o choro acaba no momento em que nos assoamos energicamente. Para chorar, dirija a imaginação para você mesmo, e se isto for impossível, por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas ou nos golfos do estreito de Magalhães nos quais ninguém entra, nunca. Chegado o choro, deve tapar-se com decoro o rosto, usando ambas as mãos com as palmas viradas para dentro. As crianças chorarão com as mangas da camisa encostadas à cara e, de preferência, num canto do quarto. Duração média do choro, três minutos.

[trad. livre do que poderia ser um conto de Julio Cortázar, por Miguel Cardina, A Cidade Vaga]

12.9.06

É da natureza dos pedregulhos

... serem inamovíveis.

6.9.06

Por uma questão estritamente estética…

La Dolce Vita ou Vertigo?

Agradecem-se sugestões.

Cenas da vida quotidiana numa casa que hoje foi às compras

Ainda há pouco deitei fora um pacote de arroz consumir de preferência antes de 12/2006 porque achei que já tinha passado do prazo. Passou-se isto na cozinha onde, colado ao armário de vidro, há um cartão - daqueles que se trazem das bilheteiras de cinema e dos bares - a dizer Fuck 2004. Mas também se podia ter passado uns metros de corredor mais à frente, na sala, onde existe outro da mesma origem, esquecido em cima da mesa. Diz Urgências 2006.

14.8.06

Gabriel



12/08/06

11.8.06

human


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8.8.06

termo de identidade e resistência

Andamos todos com o tempo às avessas. Ninguém deu por nada. Mas já foi há um ano. Um ano, vinte e dois dias e cento e sessenta e seis posts depois cá continuamos.

4.8.06

Com dedicatória aos lugares três e cinco

Ao cair da noite, salta o muro
Deita abaixo a porta da fachada
Vai p'lo corredor comprido e escuro
Corre os cantos da casa abandonada

Pelas brechas do soalho apodrecido
Saúda com a ponta dos teus dedos
O chão inicial que foi escondido
A pedra que guardou os teus segredos

Desmonta uma a uma as fechaduras
Rasga as cortinas, esventra as almofadas
Para que as penas cubram as molduras
E voem p'las janelas escancaradas

Destapa os retratos de família
Dos lençóis que os protegem da poeira
Transforma cada peça da mobília
Em achas preparadas p'rá fogueira

P'la sala espalha ramos de alecrim
Acende um candelabro bem no centro
Fuma um cigarro, sai pelo jardim
E entra cantando p'lo dia dentro

Templo Dourado
Camané

29.7.06

Normalmente numa esplanada, a tilintar de frio

Gosto de me rir com ela, em conversas sobre os gajos que nos fizeram mal e os que nos fizeram bem (temos uma queda para os primeiros, acentuada nos últimos tempos, por obra e graça do Dependurado e do Louco com que a Maia gosta de nos presentear semana sim, semana sim). Gosto de me rir com ela, quando ela faz um ar engraçado, empina o nariz para trás e se engasga com o fumo do cigarro (Francamente, que mania de me tirar fotos de perfil, com um nariz horrível), quando fazemos concursos de “a casa mais desarrumada”, com o “pormenor de desarrumação mais decadente” (tenho para mim que, por pudor, nos poupamos mutuamente aos verdadeiros campeões). Quando, de insuspeitas criaturas, nos transformamos em colunista de o sexo e a cidália e nos rimos dos trastes afectivos que a vida nos tem oferecido embrulhados em papel celofane, com um riso genuíno de bonança depois da tempestade (só lhes temos a agradecer, do mais fundo da nossa costela masoquista, por nos deixarem sofrer mais um bocadinho, e o que nós gostamos disso, afinal não os escolhemos ao acaso). E a culpa disto tudo não é da cerveja (criámos imunidade ao álcool que vem no líquido dourado, mas continuamos a bebê-la aos litros e o melhor é mesmo começar a pedi-las sem álcool que, dizem estudos independentes, têm um terço das calorias e não incham a barriga). As duas temos o riso e tudo para ser felizes. E se não somos a culpa é da Maia que, religiosamente todos os domingos, nos dita sentenças de morte para a semana, ao mesmo tempo que nos dá pistas para saber o que os trastes afectivos andam a pensar, se é que pensam, porque já desistimos de lhes perguntar, mas ainda não desistimos de tentar perceber. E a seguir isto pedia mesmo um “os gajos são todos iguais”, mas isso é uma pura injustiça, há uns bem piores que outros. E este post não é sobre eles, é sobre as conversas que nos fazem rir genuinamente quando, por dentro, ainda choramos um bocadinho, rir do alto dos saltos agulha de mulher crescida que não usamos (eles corariam de vergonha se soubessem as coisas que dizemos e que eles nunca ouvirão dos seus botões). Rimos sobretudo de nós. Temos que rir mais.

(existe uma pessoa que, se lesse este post, teria muito a dizer sobre sapatos, a sorte é que não conhece este pasquim virtual. Um grande bem haja para ele)

27.7.06

Beco sem saída



Há dias assim.

24.7.06

Eu eu de ti, por estas e tantas outras palavras certas

- Depois de acabarmos ela teve um filho.
- Hum. Mas ainda gostas dela?
- Gosto, claro. Mas também ainda gosto de ti.

12.7.06

ténis sem rede

Não era um jogo de ténis normal. Em vez de os olhos seguirem a bola da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, esticando o pescoço no mesmo compasso invariável, em movimentos paralelos sem nunca se tocarem, os olhos jogavam descompassados, faziam razias e fugiam. Ora agora olho eu, ora agora olhas tu. O jogo de ténis já durava há mais de meia hora, jogava-se para o empate. Para o embate.
Ele não passava da mesma frase, já a lera três vezes sem lhe tirar o sentido. Ela olhava o mar ao fundo - Viro-me à terceira onda que passar a linha da areia molhada. Ele virou finalmente a página, largando a revista em cima da mesa, com as folhas a lutar com o vento. Ela pediu uma imperial. Ele encostou-se na cadeira. Ela fingiu que não percebeu e sacou do moleskine. Ele pousou para a descrição que ia nascendo na folha quadriculada. Ela parou de escrever. Ele parou de pousar. Ela levantou os olhos e sorriu. Ele levantou as pernas e arrastou a cadeira para a sua mesa.

10.7.06

Caterpillar

Quebrou-se a cápsula, derramou-se o veneno. O líquido vil já percorre o corpo, atravessa os tecidos, interrompe o normal funcionamento das células para deixar a sua larva de tristeza. E, em vez de o veneno se anular no antídoto da razão, vai alimentando o corpo estranho que, pequeno no seu casulo, ainda sem ser corpo nem ser estranho, engorda ao transformar-se no outro.
Deixou o casulo vazio, cordão umbilical cortado, ganhou asas, ganhará fronteiras. E eu sei que isso não é um fim, é um nascimento, dois corpos ganham vida autónoma, podem largar e voltar a tocar-se, que a pele fronteira que separa é a pele ponto de contacto que une. Queria deixar-te ir. Mas a minha mão não me obedece. Contrai-se pelo veneno, fecha-se numa rigidez dolorosa. Não és tu, sou eu, este é o meu corpo e o meu veneno, derramado em mim. Sempre foi assim. E eu não sei ser de outra forma.

4.7.06

Monty Phyton escrevem argumento para Deus

Mulher acorda de coma com sotaque da Jamaica

Um ataque cerebral deixou a inglesa Linda Walker, de 60 anos, com um estranho efeito secundário: acordou com pronúncia da Jamaica. Os familiares nem queriam acreditar quando a empregada administrativa reformada abriu os olhos e começou a falar, sem vestígios do sotaque nasalado de Newcastle que sempre teve.

O síndroma da pronúncia estrangeira é muito raro e foi identificado pela primeira vez durante a II Guerra Mundial, quando as primeiras palavras de um soldado norueguês, após ter sido ferido na cabeça num raide aéreo inimigo, passaram a ser embrulhadas num perfeito sotaque alemão.

“Não me consigo reconhecer. Tenho constantemente a impressão de que sou outra pessoa”, declarou a desolada Linda Walker ao jornal local Evening Chronicle. Segundo investigadores da Universidade de Oxford, esta inglesa de meia idade, que viveu sempre na mesma região do país, sofre do síndroma da pronúncia estrangeira, um fenómeno por vezes observado quando as partes do cérebro ligadas à linguagem são alteradas, depois de uma convulsão cerebral.

A doente não se apercebeu imediatamente do facto quando acordou: foi a sua terapeuta que a questionou acerca da estranha pronúncia. Sempre que fala ao telefone, a maioria dos interlocutores identifica um nítido sotaque jamaicano – também já confundido com italiano e eslovaco.

(in Agência France Press)

2.7.06

Lugar

Um lugar é um espaço com sentido. Às vezes olho para as paredes e não encontro esse sentido. Sólidas, são irrepreensíveis na tarefa de proteger e guardar do mundo. Nunca verteram uma lágrima para fora, sempre contiveram os gemidos e as gargalhadas para dentro. Não obstante, há uma certa brancura oca que se mantém, teimosa, ao desfilar dos sentidos.
A verdade é que a minha casa nunca me perdoou o facto de me ter mudado sem um grão de sal. Não tens sal? Não sabes que nunca se muda para uma casa nova sem sal, que dá azar? Já o tinha sentido antes, mas foi num dos primeiros jantares improvisados que fiquei a saber o motivo. Tinha uma casa sem sal. A culpa era toda minha e tudo poderia ter sido diferente com uma passagem precavida ao Pingo Doce. Até hoje sinto que lhe falta o sal primordial, que nem todo o incenso do mundo consegue esconder.

26.6.06

"Give me your hand, or don't. It's all a matter of chance"

19.6.06

varanda para o mundo

Há uns dias, quando nada era mais real do que o prelúdio de uma onda de calor, pouco antes de a chuva me trazer de novo o meu mundo, descobri que tinha varanda. Gostei do que encontrei para lá dos estores que passam a vida cabisbaixos.
Não partilho paixões pelo mundo bucólico, mas este fim-de-semana comprei flores a sério, agarrei a terra com as mãos, deixei as unhas com um risco preto encostado à pele, mudei-as para os vasos, parti um ramo ou outro – é uma arte arriscada, de filigrana e sombra – e coloquei-as na nova assoalhada a céu aberto. Agora, é vê-las crescer. Estou apostada. Elas hão-de crescer.

16.6.06

Este blog também já estava a precisar de uma trovoadazita


Na noite de terça-feira, perto do berço de Origami. Por azar, não estava lá.

Ele vive!

...e promete novidades.

15.6.06

Post it

Conhecer é reconhecer, mas é preciso ter conhecido para reconhecer.
JLB

14.6.06

barra cronológica

A partir de quando devemos nós começar a desistir?

Fragmento

Quando o pastel de nata chegou, já não sobrava muito café na chávena. Como perdeu o contraponto amargo da cafeína, à qual estrategicamente não juntara açúcar, compensou juntando canela. Distraída da medição, o prato fez-se acobreado. O estômago deu mais uma volta sobre o assunto, a primeira dentada foi de olhos fechados. Decidiu mudar de perspectiva e, pelo sim, pelo não, mudou de cadeira. Já ia na terceira volta à mesa e aproveitou a mudança para olhar para a porta, como quem olha só porque é obrigada pelo movimento. Com o cérebro feito em massa cinzenta, pensava com o estômago enjoado pelo açúcar e pontapeado pela cafeína. Desculpa, não acerto com as horas.

9.6.06

Da escrita e outros demónios

Escreveram a quatro mãos, mas não puseram a assinatura. A folha ficou apócrifa. Dada a ser renegada pelos autores, portanto, que a escrita tem destas coisas, evolui, acontece olhar para o que se escreveu antes e não ver nisso mão própria, ainda que ela tenha estado lá, esteve, mas já não está.

Que não, não precisa de autenticação, está aqui, eis as caligrafias. E depois, depois há sempre a memória, nem que a folha acabe num palimpsesto, daqueles em que não há processo químico que recupere o original.

- Ah, mas é para continuar a escrever, o texto ainda não acabou?
- Texto, qual texto?

8.6.06

E agora, algo demasiadamente bonito

CANÇÃO DA INFÂNCIA
Peter Handke



Quando a criança era criança
andava e balouçava os braços.
Queria que o regato fosse um rio
o rio uma corrente
e esta poça o mar.

Quando a criança era criança
não sabia que era criança.
Tudo estava cheio de vida, e a vida era uma só vida.

Quando a criança era criança
não tinha opiniões sobre nada.
Não tinha vícios.
Sentava-se com as pernas cruzadas e de súbito desatava a correr
tinha um remoinho no cabelo
e não fazia caretas quando a fotografavam.

Quando a criança era criança
era o tempo destas perguntas:
Porque sou eu e não sou tu?
Porque estou aqui, e não aí?
Quando começou o tempo, e quando acaba o espaço?

A vida debaixo do sol é apenas um sonho?
Isto que eu vejo, ouço e cheiro
é apenas uma ilusão ou o mundo defronte do mundo?
O mal existe mesmo,
ou são as pessoas que são más?
Como se explica que eu, que sou eu,
não existisse antes de existir,
e que um dia
este que eu sou
não seja mais este que sou hoje?

Quando a criança era criança
engasgava-se com espinafres, ervilhas, arroz doce
e couve-flor
e agora come isso tudo
e não apenas porque tem de comer.

Quando a criança era criança
acordou uma vez numa cama estranha
e agora também acorda algumas vezes.
Achava muitas pessoas bonitas
e agora acha apenas algumas, poucas.
Tinha uma ideia exacta do Paraíso
e agora mal o imagina.
Não concebia o nada
e agora estremece com a ideia.

Quando a criança era criança
brincava com entusiasmo
e agora
fica igualmente excitada
mas só quando se trata
da sua profissão.

Quando a criança era criança
as uvas caíam nas suas mãos como só as uvas
e ainda caem hoje.
As avelãs faziam-lhe aftas na língua
e ainda fazem.
No cimo de cada montanha desejava
uma montanha mais alta.
E em cada cidade desejava
uma cidade maior.
E ainda é assim.
Chegava às cerejas no topo das cerejeiras
com a mesma exaltação que sente hoje.
Era tímida com os estranhos
e ainda é.
Esperava a primeira neve
e ainda espera.

Quando a criança era criança
atirou um pau a uma árvore como se fosse uma lança
e essa lança ainda oscila na árvore agora.




De 'As asas do desejo', as palavras mais doces do idioma germânico. As únicas que guardei em ficheiro de som e não de texto. Tradução gentilmente furtada a Pedro Mexia

5.6.06

Tenham medo...

Alguém chegou ao Termo quando fazia uma busca por “stands de autocaravanas”. Veio ao sítio certo. Para o caso de voltar, temos a dizer o seguinte: tenham medo, tenham muito medo. Isso, e perguntem pela franquia.

4.6.06

provas documentais

3.6.06

Lastro

CC: Dessa forma, o senhor pretende evitar o comércio de material inédito depois da sua morte?
CB: Isso me incomoda bastante, mas comigo não vai acontecer. Não deixei rastros. E não vou deixar.

Excerto de entrevista recente a Chico Buarque, a páginas tantas

1.6.06

Verbo ver conjugado no futuro, na terceira pessoa do plural

Não gosto do Verão. E ele está a chegar.

31.5.06

Tempo(s)

Avenida 24 de Julho, um dia destes... Um daqueles relógios que há pelas ruas marca 9.54. Mais à frente, um segundo. 9.51. E, adiante, um terceiro. 9.47. Ainda pensei pedir ao taxista que seguisse sempre em frente. Mas não... Estava atrasada.

30.5.06

Comprehensive ID

28.5.06

Ampi-pur rádio

Na pasta de memória não há muitos ficheiros em formato .ch. Não sei se pela falta de nariz, se pela falta de lembrança, se por um erro na captação, se por um erro no armazenamento, o olfacto nunca foi gaveta primordial do tempo e nem as sensações algumas vez se colaram aos cheiros como aos sons e às palavras.

Por isso, também por isso, é sempre deslumbrada que fecho a porta e deixo entrar o cheiro verde e doce das agulhas de pinheiro.
Então, juro que balanço, derreto sempre um bocadinho e apresso-me a apertar o cinto. Então, por uns segundos, sorrio para dentro, respiro fundo e mando os olhos passear.

25.5.06

Post calço

Este post é só para empurrar o outro para baixo. Há que dar o devido destaque a um título tão aguardado.
Era um bom título. Só faltava arranjar um texto.
Mas suspeito que aquele texto não pertence àquele título.

Muita areia para a minha autocaravana


Cinco. Como os dedos da mão. Embalados por uma música que não toca nesta latitude. Polegar, mindinho, indicador. Anelar e o do meio, o maior, não-nomeado. Ficam melhor numa mão aberta, a deixar antever paisagens. Temperados com açafrão.
Fechados não se vêem uns aos outros, a união é cega, um jogo eterno a tentar adivinhar quem tem um chapéu preto. Posso afastá-los, mas não muito. Não nada.
Hoje quero acreditar em cinco dedos vividos lado a lado. O que é que uma mão destas não consegue agarrar?
A areia do tempo escorre entre os dedos.

Mnemónica

Deixei escorrer o tempo e temo que o deserto se tenha entretanto inundado. E que a água tenha levado a história do guia que apontava para a cidade de braço cortado. E as lendas berberes com nome de dromedários de língua áspera a soar à mais bela melodia do deserto. E as mouras encantadas que todos os dias mudavam as tatuagens, do nariz para o queixo, do queixo para o nariz, e serviam chás sempre doces e amargos. E o árabe que se sentava no tapete de uma franja e tocava histórias do seu kasbah e de mil e uma noites. E as leis de uma terra onde um rei um dia disse que ninguém poderia ficar sozinho. E os rios que, num impulso, se levantaram do leito para deixar deitar os oásis. Mas um dia vou contar tudo. Se entretanto o deserto não me atraiçoar.

24.5.06

E mais...

Se um certo post que mete areia e autocaravanas não for escrito muito - mas muito - rapidamente, adivinhem quem vai escrevê-lo?

17.5.06

Mail interno/Intimação

Se ninguém escrever um certo post nas próximas 24 horas, adivinhem quem vai escrevê-lo. Hum?

8.5.06

No parque da imaginação



Imagem regateada da história anterior.

7.5.06

O parque da vila azul

Tinham comprado a carrinha por impulso. Antes de ser cinzenta riscada a laranja gráfico, foi respigo num coma de ferrugem. Hoje, havia uma criança de sardas e tranças a espreitar pela teia de tinta, criando ruído à decoração de “atenção, aqui seguem punks sujos e descompensados, com fortes instintos militares”. A pintura foi pensada para impressionar a estrada, desafio de guerra a cada perigo. A foto da criança foi colada para se deslumbrar ao primeiro instante de cada chegada.
Quando a compraram por impulso, estava parada entre uma carcaça de um táxi e uns ferros que um dia foram automóvel. Tal como a vedação que rodeava aquele cemitério auto-transportado dos arredores de Berlim, não batia certo. As rodas eram altas e robustas, o revestimento da carroçaria bruto e bélico, a cabine do condutor agachada e tímida. Lá atrás, nem uma única janela para respirar. ‘Apenas por 800 euros’, dizia o anúncio escrito à mão numa cartolina que se encolhia quando chegava ao ‘s’.
- Consigo chegar aos 500, lançou-lhe ele com aquele olhar ao qual ela só sabia responder com um abraço de lhe chegar aos ossos.
- Imagina que até consegues baixar para os 500, e depois, onde é que a guardamos?
- Pois, não temos lugar para ela. Não a podemos parar nem estacionar.
Foi ai que ela pegou nas suas ferramentas de serralharia e ele nos seus instrumentos equilibristas. Despediram-se do que tinham para se despedir e foram ver o mundo.

23.4.06

à sombra de uma oliveira





Nos próximos dias, alguém vai ficar sozinho em casa.

19.4.06

Largada

Numa tourada, há sempre um lado por onde começar, um primeiro da fila, um eleito de investida, um espirrar para dentro, um sacar do peito, um agora é que vais ver, um foda-se a doer. Numa tourada, somos todos touros a sonharem-se cavalos.

16.4.06

Ali sem de lá nem dali

Um lugar. Onde nenhum. Um tempo para tentar ver. Tentar dizer. Quão pequeno. Quão vasto. Se não ilimitado com que limites. Donde o obscuro. Agora não. Agora que se sabe mais. Agora que não se sabe mais. Sabe-se somente que saída não há. Sem se saber porque se sabe somente que saída não há. Somente entrada. E daí um outro. Um outro lugar onde nenhum. Donde outrora dali regresso nenhum. Não. Lugar nenhum a não ser só um. Nenhum lugar a não ser só um onde lugar nenhum. Donde nunca outrora uma entrada. Dalgum modo uma entrada. Sem um só além. Dali donde não há ali. Por lá onde por lá não há. Ali sem de lá nem dali nem sequer por onde.

Samuel Beckett

(Obrigado CM. Mais uma vez.)

14.4.06

Redenção

Conseguem imaginar o que passa neste momento pela cabeça de João César das Neves? “Deixo de escrever no DN ou não deixo? Escrevo e peço que deixem de me ler? Escrevo de olhos fechados para não ver? Escrevo sem ler, ou leio sem escrever?”

Chico Buarque pensou em tudo. E também nisto.

Não existe pecado
do lado de baixo do Equador
vamos fazer um pecado, rasgado
suado a todo o vapor
me deixa ser seu escracho
capacho, teu cacho
um riacho de amor
quando é lição de esculacho
olha aí, sai de baixo
que eu sou professor
Deixa a tristeza para lá.
Vem comer, me jantar
sarapatel, caruru, tucupi, tacacá
vê se me usa, me abusa, lambuza
que a tua cafuza
não pode esperar
deixa a tristeza para lá
vem comer, me jantar
sarapatel, caruru, tucupi, tacacá
vê se se esgota, me bota na mesa
que a tua holandesa
não pode esperar
não existe pecado do lado de
baixo do Equador
vamos fazer um pecado, rasgado
suado a todo o vapor
me deixa ser seu escracho
capacho, teu cacho
um riacho de amor
quando é missão de esculacho
olha aí, sai de baixo
eu sou embaixador

Perdoai-lhes, Senhor...

Serve a presente missiva para pedir encarecidamente ao Vaticano que me diga quanto tempo do meu dia posso passar a ler jornais, sem ficar sujeita à condenação eterna. Obrigado.

13.4.06

Aleluia

O padre Vaz Pinto explica que é normal que a Santa Sé elenque os jornais na lista dos pecados de confissão obrigatória. E clarifica que o objectivo não é condenar o uso, mas sim o abuso. Deus vos abençoe, senhor prior. Estou farto que os jornais abusem de mim.

12.4.06

E se deus existisse e fosse taxista?



Hieronymus Bosch

11.4.06

Serviço a crédito

Cerrou os olhos à luz que entrava pela janela e, lânguida do sol, a música começou a dançar, meio sussurro, meio vigília. No mesmo momento, a rádio sintonizou-se na exacta frequência do pensamento. Incrédula, ajustou o volume das orelhas, mudou de stereo para mono, saltou da coluna de dentro para a de fora. Alguém lá em cima estaria seguramente a brincar com ela. E ela hoje não estava para brincadeiras.
- Boa tarde, era para o raio que o parta, perdão, Rodrigues Sampaio.

7.4.06

Teoria da Razão Pura

Um dia, gostava de conseguir separar o 'eu' que age racionalmente do 'eu' que age instintivamente. Aposto que a acção racional do primeiro seria dar uma grande sova no segundo.

6.4.06

O elefante da memória

Precisamente porque já havia estrofes sobre isso. E ainda reedições em dueto.



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De uma voz romanceada...



...se faz uma cartilha maternal, nem que se recorra apenas ao cancioneiro popular, se repousem solidões junto à televisão como quem acende a lareira.

Já havia estrofes sobre isso.

E tu Maria diz-me onde andas tu
qual de nós faltou hoje ao rendez-vous
qual de nós viu a noite
até ser já quase de dia
é tarde, Maria
toda a gente passou horas
em que andou desencontrado
como à espera do comboio
na paragem do autocarro

Lá em baixo ainda há quem passe
e um sonho que anda à solta
vem bater à minha porta
diz a senha da revolta
vou plantá-lo e pô-lo ao sol
até que se recomponha
é um sonho que acordado
vale bem quem ele sonha
lá em baixo, até já disse
que é que tem a ver comigo
e no entanto sobressalto
se me batem ao postigo

É só um problema de memória. Já havia estrofes sobre isso.

5.4.06

Uma questão de tempos

Há sorrisos desvanecedoramente alegres. Sorrisos rasgados. Enternecedores. Prometedores. Acabrunhados. E há sorrisos tristes. Como se o tempo os suspendesse antes de eles se conseguirem desenhar - o tempo pára ali a meio e recua, o próprio tempo desfaz o que o tempo ia fazer. Deve ser por isso que os sorrisos tristes são, muitas vezes, uma questão de tempos. Quando sorrimos (porque sim...) à certeza de que o tempo desfez o que o tempo ia fazer.

30.3.06

Gosto de gatos

«Ah», disse o rato, «o mundo cada dia fica mais apertado. A princípio era tão grande que até me metia medo, depois continuei a andar e ao longe já se viam os muros à esquerda e à direita, e agora - e não passou assim tanto tempo desde que eu comecei a andar - estou no quarto que me foi destinado e naquele canto está já a armadilha em que vou cair.» «Tens de inverter o sentido de marcha»- disse o gato. E comeu-o.


(Franz Kafka, Parábolas e Fragmentos)

A falta que malta desta nos faz II

Nas redacções assépticas onde hoje é proibido fumar e o chá substituiu os copos de wiskey, faltam homens de casaco de cabedal a cheirar a nicotina, daqueles que cospem no chão e se parecem com o Bogart. Faltam cigarros ao canto da boca e baforadas expelidas ao telefone. Falta o chumbo a correr nas veias e uma certa dose de loucura a passar pelos dedos. Faltam gangsters e não se ouvem tiros. It's all so quiet, it's all so...

28.3.06

A falta que malta desta nos faz

Malta ficcionada, portanto, elegantemente trajada a preto e branco para melhor assinalar a assimetria, os bons e maus rapazes, raparigas só casadas, mesmo que emancipadas por broadcast televisivo. Carregar o mundo às costas meia hora por semana, dirty job, I do it. Tão mais fácil viver assim, passam os créditos, desliga a emissão, vamos beber um copo.

A falta que uma boa ficção nos faz.

25.3.06

Bermudas

Dantes o triângulo era uma forma sem arestas, como outra qualquer. Agora é puro arame farpado. Filho da mãe do Édipo.

23.3.06

Tédio

Alguém avisa aquele senhor lá em cima, que é suposto ter as chaves do céu e mandar no tempo, que JÁ CHEGOU A PRIMAVERA logo é favor fechar a torneira que já não basta tudo o resto e a malta ainda tem que se levantar de manhã (pronto, ao final da manhã) com uns janelões com muito céu e muito rio e levar com um sem fim de cinzento que nunca mais acaba para onde quer que se olhe. QUERO O MEU AZUL DE VOLTA.

PS- Como o senhor também tem as chaves do paraíso, troco de bom grado o bilhete de entrada pelo meu rio azul. De qualquer maneira, o inferno deve ser mais quentinho e as alminhas devem ser bem mais interessantes.

19.3.06

Chuva agridoce

Há um certo reboliço que nos cola costas com costas à cadeira e que nos mantém ali horas, em silêncio, a tentar embalá-lo. A chuva veio, mas não trouxe a calma habitual. Desperdicei cada gota como desperdicei cada minuto de tanto andar para trás e para a frente no tempo. Não quero desperdiçar tempo. Mas não quero aproveitar o tempo se for puro desperdício. Quero e não quero. Gosto tanto de não fazer nada como de fazer o que gosto, mas não gosto dos dias que não sabem a nada. Não gosto do que não sabe a nada. E a memória desse sabor tem atormentando as minhas papilas gustativas, que entretanto abriram uma pequena guerra aos maxilares. Estão costas com costas. Eles, primatas, porque querem agarrar, elas, sapiens, porque temem provar.

10.3.06

Paridade

(A huge Roman amphitheatre, sparsely attended. REG, FRANCIS, STAN and JUDITH, the People's Front of Judia inteligentia, are seated in the stands. They speak conspiratorially.)

Judith: I do feel Reg, that any anti-imperialistic group like ours must reflect such a divergence of interest within its powerbase.

Reg: Agreed. Rogers?

Rogers: Yes, I think Judith's point of view is very valid, Reg, provided the movement never forgets that it is the unalienable right of every man...

Stan: Or woman.

Rogers: ...or woman to rid himself...

Stan: Or herself.

Rogers: ...or herself...

Reg: Agreed.

Rogers: Thank you, brother.

Stan: Or sister.

Rogers: Or sister...where was I?

Reg: I think you'd finished.

Rogers: Oh. Right.

Reg: Further more, it it the birthright of every man...

Stan: Or woman.

Reg: Why don't you shut up about women, Stan? You're putting us off.

Stan: Women have a perfect right to play a part in our movement, Reg.

Rogers: Why are you always on about women, Stan?

Stan: (pause) I want to be one.

(pregnant pause)

Reg: What?

Stan: I want to be a woman. From now on, I want you all to call me Loretta.

Reg: What?

Loretta: It's my right as a man.

Judith: Well, why do you want to be Loretta, Stan?

Loretta: I want to have babies.

Reg: You want to have babies?!?!?!?!?!?!

Loretta: It's every man's right to have babies if he wants them.

Reg: But...you can't have babies!

Loretta: Don't you opress me!

Reg: I'm not opressing you, Stan. You haven't got a womb. Where is the foetus going to gestate? You're going to keep it in a box?

(Stan starts crying)

Loretta: Sniff.

Judith: Here, I've got an idea. Suppose you agree that he can't actually have babies, not having a womb, which is nobody's fault, not even the Romans', but that he can have the right to have babies.

Rogers: Good idea, Judith. We shall fight the oppressors for your right to have babies, brother. Sister! Sorry.

Reg: What's the point?

Rogers: What?

Reg: (pissed) What's the point of fighting for his right to have babies, when he can't have babies?

Rogers: It is symbolic of our struggle against opression.

Reg: Symbolic of his struggle against reality.


Monty Python's The Life of Brian

9.3.06

Borges

O frontispício do castelo advertia:
"Já estavas aqui antes de entrar
e quando saíres não saberás que ficas".

8.3.06

Die MMMMMMMMMMCCXXVIII
Annus Magnus XXVII

Cumpre-se hoje o décimo milésimo ducentésimo vigésimo oitavo dia de desassossego. Tudo junto, dá 28 anos. Parabéns. Esteve inspirado quem se lembrou de te chamar Rotativa.

2.3.06

Sem rasto

Ele tinha perdido o rasto. Voltou para trás à procura dos passos na areia. Já não havia passos na areia. Olhou para trás, que no caso era para a frente - nem rasto. Tentou calcar os pés na areia. Andou para a frente, outra vez para trás, agora para o lado. E os olhos não vêem nada, nenhum caminho fica neste chão. A memória dos passos perde-se nele. O andar não faz caminho neste chão. Não há caminho neste chão.

26.2.06

BSO

Banda sonora original para um um fim-de-semana de neura.



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25.2.06

Edição extra

Pensámos que seria boa ideia editar estas almas em fascículos amortalhados. A cada dia quatro números, por tuta e meia com o seu jornal.

Trilogia do absurdo

Sardas?

Post sem título II

Procurámos as respostas. Procure alternativas. Sim Repense a sua abordagem. Pensa numa resposta. É para fazer cedo. O livro diz. Não escrevi este livro. Esta página está em branco. Escreve uma pergunta.

Sem título

Aconselharam-me a pôr isto por escrito.

The Wall

Esqueci-me onde guardei a puta da escada.

24.2.06

Don't Fade Away_ Dead Can Dance


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23.2.06

Correntes de escrita

Há leitores que não conseguem ver um livro sem escrever palavras suas pelas páginas.

Há escritores que não escrevem páginas suas para serem riscadas por outras palavras.

Há editoras que não arriscam as suas páginas e só imprimem em papel plastificado.

Há outras que investem na bolsa e apostam no palimpsesto.

22.2.06

palavras que me surgem numa calma noite em que devia estar a arrumar a cabeça mas em vez disso namoro a desarrumação da cabeça da Origami (overtitled)

Hello
Is there anybody in there?
Just nod if you can hear me
Is there anyone at home?
Come on, come on down,
I hear you’re feeling down
Well I can ease your pain
Get you on your feet again
Relax
I need some information first
Just the basic facts
Can you show me where it hurts?

There is no pain, you are receding
A distant ship's smoke on the horizon
You are only coming through in waves
Your lips move, but I can’t hear what you’re saying
When I was a child, I had a fever
My hands felt just like two balloons
Now I’ve got that feeling once again
I can’t explain, you would not understand
This is not how I am
I have become comfortably numb

OK,
Just a little pin prick
There’ll be no more, aaaaaaaaaaaahhhhhhhhh,
But you may feel a little sick
Can you stand up?
I do believe it's working, good
That’ll keep you going for the show
Come on, it’s time to go

There is no pain, you are receding
A distant ship's smoke on the horizon
You are only coming through in waves
Your lips move, but I can’t hear what you’re saying
When I was a child, I caught a fleeting glimpse
Out of the corner of my eye
I turned to look, but it was gone
I cannot put my finger on it now
The child has grown, the dream is gone
I have become comfortably numb

Roger Waters, a páginas tantas

20.2.06

Gosto

Magari.

Untitled

Sentimos a dor que conseguimos sentir. A outra, transformamo-la em dormência.

Mesmo anestesiada, há momentos em que ela se farta de ser moinha. Então, liberta-se de rompante, pontada fria contra o tórax.

Vidência e evidência

Sexto sentido, ou alucinação? Esfrego os olhos e continuo sem saber se eles estão a olhar para dentro ou para fora. Será que o que vejo sou só eu a ver?

Alguma vez saberei traçar as fronteiras entre o que é o mundo e o que sou eu? Quantas vezes o óbvio não é obviamente a cabeça a andar à roda do que me faz tremer. E quantas vezes rodopio eu em imagens ilógicas que a realidade vem comprovar num silogismo perfeito.

16.2.06

100.º post

E agora, segue para que lado?

15.2.06

montanha russa

Mas será que nunca mais tenho sossego na vida?, suspirou-me ela. E um insurgente sorriso abafou-lhe o lamento.

14.2.06

Sondagem à boca da urna


Concorda que o Dia dos Namorados...
Tem utilidade pública, ao nível do Dia Mundial do Lupus
Faz parte da estratégia do Ratzinger para reabilitar o amor carnal, na fé do senhor
Devia ser comemorado apenas nos países muçulmanos
Devia ser abolido, derivado a procedimentos licenciosos
É um atentado
outro
  
Free polls from Pollhost.com

13.2.06

Palavra de Agostinho da Silva
mestre na desarrumação do pensamento

Não me preocupa no que penso nem a originalidade nem a coerência. Quanto à primeira, tudo aquilo com que cncordo passa a ser meu - ou já meu era e ainda se me não tinha revelado. A minha originalidade está só, porventura, na digestão que faço. Pelo que respeita à coerência, bem me rala; o que penso ou escrevo hoje é do eu de hoje; o de amanhã é livre de, a partir de hoje, ter sua trajetória própria e sua meta particular. Mas, se quiserem pôr-me assinatura que notário reconheça, dirão que tenho a coerência do incoerente e a originalidade de não me importar nada com isso.

Agostinho da Silva, Pensamento em Farmácia de Província 1, 1977

palavras que me surgem numa calma manhã de folga em que devia estar a arrumar a casa mas que gasto mais uma vez a desarrumar pensamentos…

Two can be as bad as one
It's the loneliest number since the number one



Oh, for the sake of momentum
I've allowed my fears to get larger than life
And it's brought me to my current agendum
Whereupon I deny fulfillment has yet to arrive

And I know life is getting shorter
I can't bring myself to set the scene
Even when it's approaching torture
I've got my routine

Oh, for the sake of momentum
Even though I agree with that stuff about seizing the day
But I hate to think of effort expended
All those minutes and days and hours
I have frittered away.

And I know life is getting shorter
I can't bring myself to set the scene
Even when it's approaching torture
I've got my routine

But I can't confront the doubts I have
I can't admit that maybe the past was bad
And so, for the sake of momentum
I'm condemning the future to death
So it can match the past.

10.2.06

Sex and the city and also the noble village of Alhos Vedros

É o novo nome deste blog. Tá visto.

pois que sendo assim só falta o Oliveira para a série estar completa




You Are Most Like Charlotte!



You are the ultimate romantic idealist. You've been hurt before, but that hasn't caused you to give up on love. If anything, your resolve to fall in love is stronger than ever. And it's this feminine optimism that men find most appealing about you.
Romantic prediction: That guy you are seeing (or crushing on)? Could be very serious - if you play your cards right!

Venha o guarda-roupa...

You Are Most Like Carrie!
You're quirky, flirty, and every guy's perfect first date.But can the guy in question live up to your romantic ideal?It's tough for you to find the right match - you're more than a little picky.Never fear... You've got a great group of friends and a great closet of clothes, no matter what!
Romantic prediction: You'll fall for someone this year...
Totally different from any guy you've dated.
Which Sex and the City Vixen Are You?

E já vão duas....




You Are Most Like Miranda!



While you've had your fair share of romance, men don't come first. Guys are a distant third to your friends and career. And this independence *is* attractive to some men, in measured doses. Remember that if you imagine the best outcome, it might just happen.
Romantic prediction: Someone from your past is waiting to reconnect...
But you'll have to think of him differently, if you want things to work.

Andam a gozar comigo, incluso eu própria

You Are Most Like Samantha!
For you, dating is the ultimate sportYou're into guys with power, looks, or a lot of money.You rather have a great two weeks than a great forever.But even you fall victim to love from time to time. :-)
Romantic prediction: You'll find love in the next few months...
But you'll be the last one to realize it.
Which Sex and the City Vixen Are You?

Sem gota d'água


Está decidido: navegaremos à vista no deserto. Uma vez que já lá estamos, ao menos gozemos a paisagem.

9.2.06

Luz e barro


Em nenhum outro momento o Homem está tão próximo da divindade. Estas linhas são dedicadas aos pais de termo.

8.2.06

Cinzento como a água

Olho, e as cousas existem.
Penso e existo só eu.


O próprio, a páginas 120

Cinzento claro

É isto e apenas isto. Já não foi pouco. Dispenso a esperança de comparecer nos meus pensamentos. Quero-os livres para aceitar o mundo, me perder e surpreender na sua insondável lógica. Quero fazer da vontade coisa nenhuma. Quero não querer. E ser Alberto Caeiro. As coisas são o que são. E já não são pouco.

22.1.06

A eleição


Por uma questão de identidade. E também de resistência. Hoje sinto-me um bocadito consumida.

7.1.06

De metáforas e caminháforas

Pois bem, pois bem, insta-nos o post anterior a a arrancar o código da estrada de quem começou a guiar um foguetão, o que só de si é um contrasenso daqueles bons, que a malta gosta. Trata-se portanto de dirigir esse objecto voador, agora que descolou do chão, rumo a outros planetas que não aqueles que ficam na terceira camada da atmosfera rotunda que habitamos. Tarefa fácil para quem não tem carta nem carrinho de mão, diga-se de passagem; e já que é de passagem que estamos, não procuremos metas, mas caminhos: morra a metáfora, morra pim, viva a caminháfora.

Vai uma caminháfora no deserto?

6.1.06

prioridade para quem sai

Caí rotunda, ganhei balanço, despistei-me, andei às voltas e, ainda cambaleante, voltei ao início. De lá se podia dizer que nunca saí, caso não se desse o caso de as rotundas não terem início. Bem sabem os ingleses do que falam quando falam em roundabouts.


(Pssst! Agora que ela já saiu do blog e não nos está a ouvir… Alguém que lhe arranque o código da estrada das mãos e tenha o bom gosto de lhe sugerir metáforas novas. Apre! Mas depressa, antes que abra o sinal e ela volte!)

31.12.05

2005=31536000+1

Na sua infinita sabedoria, o cosmos decidiu dar-nos um bónus. 2005=31536000+1. O ano que hoje termina tem precisamente mais um segundo que os outros. Não sei se é prémio ou castigo. Sinto-me gozado. Sugiro que na contagem descrescente se conte o zero duas vezes.



The Clock, Philip Guston (1913-80)

28.12.05

De uma dúvida metódica



Quem pode querer esvaziar um balão, mesmo sabendo que lá dentro está apenas ar?

26.12.05

Manual de como derreter a temperaturas negativas

Neste momento, sou fogo fátuo embriagado.

23.12.05

Um momento piroso, mas afinal estamos na época


Feliz Navidad. Sem termo.


"É varina, usa chinela,
tem movimentos de gata.
Na canastra, a caravela;
no coração, a fragata.
Em vez de corvos, no xaile
gaivotas vêm pousar.
Quando o vento a leva ao baile,
baila no baile co'o mar.
É de conchas o vestido;
tem algas na cabeleira;
e nas veias o latido
do motor de uma traineira.
Vende sonho e maresia,
tempestades apregoa.
Seu nome próprio, Maria.
Seu apelido, Lisboa."

Amuo

Eu e o meu destino não falamos com o Hoje.

Nietzsche

À nascença, confunde-se língua e poesia

Queria aprender o b-a-ba desde o início,
e começar cada frase toda em letra de garrafão.
Mas temo que não haja
nem b-a-ba escrito
nem um só livro de lição.

Cancioneiro, poeta desconhecido
1487-?

20.12.05

einstürzende

Polvilha a lógica com fumos de incenso, até que não reste silogismo sobre silogismo.

19.12.05

Shiiiiiuuuuuu

Palavras, palavras, palavras, demasiadas palavras para dizer coisa nenhuma. Haverá, por estes dias, um cantinho onde se faça silêncio?

17.12.05

161205

Por esse rio acima, na tua circunstância, que é metade de tudo o que se pode dizer de ti, tudo depende de estares perante uma paisagem bucólica, ou uma casa de pasto atafulhada. E agora, ponto final ou ponto de interrogação? Dar-te um beijo ou ir ao fundo? Ir sem a certeza de voltar ou ficar na dúvida de um segundo? Ou ficar, de âncora lançada, no preciso instante que antecede a dúvida de um segundo? A olhar para outra margem, ou na força da corrente? A beber o tempo na sede de uma espera sem futuro, só presente. Essa, pelo menos, não é tatuagem. E se o teu presente é o teu futuro? Como saberás para que lado olhar quando precisares de olhar para a frente? O caminho é único, via verde no teu sentido. E se no fundo da rua há um sinal de stop, mas tu esqueceste-te de aprender as regras... Lançaste-te ao caminho no rio, acabaste apeado numa estrada de alcatrão. Quem disse que não se pode andar sobre as ondas? Oh Lázaro! Levanta-te e deita-te uma outra vez. Outra vez!? Outra vez, não há ontens irreparáveis, lembras-te? Mas há mas, acertaste, como há muito tempo ninguém acertava. Há tempo que ninguém ousava acertar, ou talvez fosse que eu quisesse errar. Pois aí está, fosse que eu quisesse errar, e errei, e agora? Quantos aão? Ah? Os erros são meus, o medo de errar também, que devo eu a quem quer que seja que teve a sorte de acertar? Estive a jogar comigo. E consegui perder. Mesmo fazendo batota. Mesmo fazendo batota, perdi no xeque-mate... Como se a morrer na praia.Ou talvez tenha sido antes disso. Talvez tenha ficado por terra nos primeiros quadrados do tabuleiro. Eu, peão que se sonhava rei. A rainha é a peça mais forte deste tabuleiro, a que dita quem ganha e perde este jogo... Se peões fossemos, que de um quintal palácio fizessemos. Aos peões custa-lhes mais, demora mais, têm que percorrer o tabuleiro todo... E então são rainhas, e ganham o jogo. Ou talvez uma torre que se sacrifica pelo rei, em roque. Haverá no mundo melhor coisa que as guitarras dos Clash? (tsssssrttt tsrtt) Gosto das guitarras dos Clash ouvidas por ti, mesmo se a mim pouco me dizem. Diziam. I fought the law, and the law won? E então? Este 'tribunal' está em audiência permanente. A minha lei já me condenou. Sem sequer me ouvir para memória futura. (salto esquizofrénico) Não há memória futura, só memória passada e presente. A não ser que se apresente prova de que o presente é apenas passado de um futuro que há-de ser. Será presente, ou será futuro? Ou é passado que deixará de ser? Ou é só a tua escolha, a do passado, a do presente e a do futuro? Ah? Será chuva, será gente que bate leve, levemente, que não mata mas mói, que arde sem se ver a si mesma, como quem chama por mim? Ah? Respondim.Mas não ouvim. Não percebim... Nem sim, nem não: nim. Nim., não! Nim... ponto, vírgula, não... câmbio. Ponto vírgula! não reticências? Que tal ponto de exclamção, ponto final. No dead line? Não. De que serve querer fazer de uma linha morta linha de chegada? Há linhas de chegada vivas? Há o caminho. Viva! Há o caminho. "Viva!" Quando não há linha de chegada... haverá linha de partida? Se quiseres entrar na corrida e correr. Ir andando até ser. Ou deixar de ser. Mesmo que sem querer. Devagarinho acontecer... e desancontecer. E nunca perceber: eis a questão. E perceber? E querer fazer acontecer, não percebendo o que já percebemos? O que estraga tudo é o mas, lembras-te? Lembras-te se pode alguém ser quem não é? Haverá ciência menos exacta que a matemática? Há a lógica! E a química. Mesmo que a física seja mais certa... Só uma uma ciência errada. A geografia. Duas. A história também. As previsões meteorológicas vão mudando com o Tempo. Ou será que é o Tempo que vai mudando com elas? Será que é ela que mexe o chocalho, ou o chocalho é que mexe com ela. Samba no escuro? De qualquer maneira, o escuro está sempre ali. Para lá da porta que fecha esta sala onde acendi uma luz. Apagou-se. Mau contacto. Dança? Ah, peço imensa desculpa por atrapalhar o seu passo. Ou descansa? Não sabe dançar esta dança? A música é rica em melodia. Ainda que coxa de ritmo e pobre de harmonia. E, no entanto, gosto da música. Não estou já a dançar? Ou será o tecto a andar à roda? Seria uma sorte. É uma sorte. À roda da sorte. Roda Terra, ou Sorte Sol? Lua e noite. Sul. E sueste, que é para lá o caminho. Eixo do mal. Os ventos estão sempre a mudar. Mudam-se os ventos, mudam-se as vontades. Todo o vento é composto de mudança, troquemos as voltas que inda o furacao é uma criança de oito meses na escala de Richter. Alterações climáticas? O efeito é de estufa e estafa, por isso te passo a estafeta. O efeito é de estufa, de preferência com um fiozinho de azeite e umas batatinhas a acompanhar. Gastronomia?! Não sabem que não percebo nada disso? A minha ambição é frugal, pouco mais me apetece que um prato raso. De tripas, à tua moda. Quem sobe, quem desce? Disparate, qual prato raso?! Se o caldo até já entornou. Há sempre o café. Antes da partida.

15.12.05

História sem palavras lá dentro

Ponto final. Ponto de interrogação. Ponto de exclamação. Reticências. Parênteses. Ponto de interrogação.


PS - Infelizmente, não foi possível incluir travessões nesta história.

11.12.05

La la la

Quem disse que na terra dos sonhos não se morre, nem há funerais?

Ao meu, consta que não foi ninguém.

Post de correio

Abrir a caixa do correio é sempre um mistério. Quando esperamos encontrar o recibo a certificar que o feudo do mês já conta, acontece-nos receber a carta certa. As palavras são as certas, as vírgulas estão no lugar certo, os parágrafos fazem o desenho certo. Apenas o destinatário está errado.

9.12.05

Grilo de alerta

Quem vai à guerra dá e leva, ouvi-te. Por dentro, sorri para a irresistível luz dessa certeza. Por fora, armei a pose avisada e a velha voz do siso, qual grilo de abas compridas que lança o aviso de quem teu amigo é : olha que quem se faz a essa guerra dá tudo o que tem, mas raramente leva em troca o que quer. Bem sei, consentiste: mas não me apetece perder sem ir à luta. Engoli em seco. Que pode a razão contra tamanha poesia?

6.12.05

Solução salina

Não sei soletrar os símbolos químicos da tua poção mágica que me torna reagente de mil átomos. Imagino-os com muitos w, y e z, cruzados com letras do alfabeto grego e elevados ao expoente de caracteres que não existem nos teclados à venda na Fnac.

Ainda não descobri o antídoto. Se descobrires primeiro, queima a fórmula.

4.12.05

pontos e exclamações

Ardem-me os olhos de tanto ver e deixar de ver o ? dos quatro pontos de exclamação. “O mas é que estraga tudo”. Acertaste. No mas e em tudo o resto.

Als das Kind Kind war...

O ar deixou de suster o corpo e o corpo, tonto, já não tem nada a que se amparar. Não há rede, só vertigem. Os braços cederam à gravidade e as paredes do estômago contorceram-se nas cordas do trapézio. Bem sei que o pano está fechado, mas por favor não acendas a luz.

28.11.05

Só faltou isto

Entrego a minha voz
ao coração do vento
e quanto mais água
dos meus olhos corre
mais fogo acendo

Eu não me entendo
Eu não me entendo

Mas atendendo ao resto, a malta perdoa...

27.11.05

À janela

Letra: David Mourão Ferreira
Música: Reinaldo Varela
Voz: Camané

É uma escada em caracol
e que não tem corrimão.
....
Os degraus, quanto mais altos,
mais estragados estão.

26.11.05

Feira da Ladra

Descia pela nuca, dedos enrolados nas enroladas ideias do seu cabelo. Facto fabricado, pelo que consta. Depois o nariz, emerso, comprava no mercado negro dos seus caracóis. As pernas subiam as escadas 14 a 14 e, enquanto isso, os olhos negociavam tudo sobre o burro e o cigano. A pele sussurrava tu vendes, eu compro, as mãos apertavam-se em negócio fechado.

Allergic to something in the air

A certa altura, surgiu-lhe a tosse. Incomodava, mas não doía, desesperava, mas não sufocava, expelia, mas não libertava, preocupava mas não paralisava. Abriu guerra ao ar. E não se sabe quem, hasteando a bandeira, atirou primeiro. A bala surgiu desconhece-se de que lado. Não há ideia de quem, derradeiro, cairá ao chão.

25.11.05

Dos transtornos do tempo

"Tua será também a certeza de que o tempo se esquece dos seus ontens e de que nada é irreparável."

Jorge Luís Borges

Previsões meteorológicas do dia

Transtornou-se o tempo.

22.11.05

Camanémanias

Ctrl + L, repetimos até a imaginação não ter outro produto que não o já dito. Ou o que não interessava dizer, para lá do que interessava dizer.

Ctrl + F, noutra linguagem, à procura da imagem da imagem daquilo que gostávamos que fosse o nosso reflexo

Ctrl + H, há horas que humanamente o húmus da habitação já não herda da hipótese.

Ctrl + ?, o que se pode acrescentar à tecla em que se bate demasiadas vezes?

Estaba a malta aqui a pensar: ah, e tal, o que dava mesmo jeito era o Camané aparecer na esplanada. Quer dizer, os camanés da vida, porque a cada um a sua imagem de Camané na esplanada. A cada um o seu fado e o seu enfado.

21.11.05

Palavras para quê?...

19.11.05

Isaías, 05:11

Abriu-se a caixa de pandora. É sempre no Inverno.

Celta

últimas chuvas

Pode ser uma miragem, mas ainda não agradeci à miragem o facto de me fazer sentir viva.

17.11.05

Histórias de (des)encantar

Todas as noites o sino toca as doze badaladas e, calado o eco da última, aquele perfil de luz irrompe pelas janelas já transformado em escuridão. Imagino a Cinderela a descer aquelas escadarias, mas a minha Cinderela não tem redenção. Perdido o sapato, perdido o príncipe, perdida a silhueta da carruagem na escuridão: naquele breu não há sapato nem príncipe nem maneira de sair dali nem de ali ser encontrado. Todas as noites são um desencontro, todas as noites é assim, o meu príncipe e a minha princesa são irmãos de Prometeu.

Uma destas noites as luzes não se apagaram. Nunca tinha acontecido, bateu a meia noite, calou-se a última badalada, a escuridão não chegou. Imagino-os a encontrarem-se, conheciam-se, pressentiam-se, estiveram sempre ali, é agora, foi agora.

Não sei se partiram e viveram felizes para sempre...
Na noite seguinte as luzes voltaram a apagar-se.

16.11.05

Post alegre

Há 20 anos que me rio por ti, às vezes de ti, sempre contigo. És o sorriso, sei-o de ciência certa, que manterei SEMPRE.

13.11.05

Cidades invisíveis

Há uma parte de ti que é só minha. Entrou por uma fresta mal calafetada, chegou-se à lareira e segredou-me histórias de cidades invisíveis junto ao mar. Prometeu-me que um dia se sumirá na maresia, antes que a possas conhecer. A certidão de óbito já está escrita - morte por afogamento. Na realidade.
E também eu deixei a promessa. Na terra dos sonhos não se morre, nem há funerais.

12.11.05

O primeiro dia do resto da tua vida (uma frase batida)

A arte é a pior das mistificações. Engana-nos quando mais precisamos dela. Encontrar o sublime no dia a dia, seria para isso que nos treinava. Também ela uma espécie de religião, de transcendência. Mas há dias que não se compadecem com estas artimanhas, trocas e baldrocas do homem com o seu Criador (uma e a mesma coisa, nesta grelha inteligivel com que escolhemos ler o mundo - porque é a mais reconfortante). Há dias em que não temos poderes. E por mais que o São Luis tenha cantado a plenos pulmões um futuro para ti, guiado pelo xamã Godinho, só a gravação desse momento de desesperada credulidade sobreviveu. Está à venda em qualquer loja da Fnac e nos entrepostos habituais.

10.11.05

Conjugações II

O pretérito conjuga-se no imperfeito, que era para ter sido tudo o que não foi. O futuro joga-se na suposição do condicional, que seria se alguma vez viesse a ser. O presente agarra-se no gerúndio para que ao menos vá sendo.

7.11.05

I fought the law, and the law won

Haverá em todo o mundo melhor coisa do que as guitarras dos Clash?

Well I'm running police on my back
I've been hiding police on my back
There was a shooting police on my back
And the victim well he won't come back

I been running monday tuesday wednesday
Thursday friday saturday sunday runnin
monday tuesday wednesday thursday friday
Saturday sunday


(trrrararrrArrrrararrrrrArrRararararrarraR)

What have I done?

police on my back

Já andava há que tempos para escrever um post alegre. Ora pois aqui está ele.

5.11.05

Serial killer


-Não deixes de acreditar.

-Não. Não deixo.

- De certeza?

-De certeza.

- Não vais deixar morrer nada?

-Só a ti.

2.11.05

Nesse momento, noutra vida

Uma menina cresceu - na mesma - a subir às árvores - mas estas eram todas cor de fogo - e não deixou de jogar à bola - e de se interrogar sobre a mecânica do primeiro beijo - mas não fez disso tratado - e não fez disso fuga de casa - e amou tudo o que lhe apareceu - independentemente de credo, religião, sexo ou raça - e não se deteve com nada - e não se deteve em ninguém - escrevia cartas longas com esboços de montanhas distantes - e recebia projectos de arquitectura do irmão - que nunca andou de comboio - o pai a mãe celebravam um reencontro tardio - a menina fingia que não tinha crescido - o mundo fingia-se infinito - stop. Uma música. Uma dança. O início. Este exercício de loucura estava a ir tão bem. Nota 20 a devaneio semiótico. A minha cadeira preferida.

31.10.05

Lápis de bico partido

Lembro-me todos os dias do que tem de ser feito. Esqueço-me todos os dias de o fazer.

carta do tarot, o ...

O sopro fez-se arrepio e o arrepio fez-se vertigem. Desde que a tarde se pusera que não não havia sopros-vertigem.
- vamos falar de sol.
- falaremos do silêncio e do vazio. O sol já só se vê na metade direita da minha janela. Não são necessários os eufemismos. Chama-se solidão.

29.10.05

Carta do improviso

O senhor sabe destas coisas e garantiu-me que só pode bem improvisar quem perceber a matemática do acaso. Disciplina e concentração, receitou-me. Sempre pensei que não, retorqui eu: achava que isso de pouco valia, que o tal acaso era espécie de cavalo cor de vento que só por sorte se consegue montar. Não, insistiu o sábio, que só corre livre quem sabe escolher a própria albarda.

27.10.05

Em negação

Há dias que não deviam existir. E o dia a seguir também não.

24.10.05

Troca de impressões (digitais)

Em cada pequeno gesto somos generosos ou egoístas. Mas vivemos mal com a generosidade e não aguentamos o egoísmo.

8.10.05

Auscultação ou da improbabilidade da comunicação

Tenho para mim que só conseguimos transpor a barreira da pele e ver para o lado de dentro quando encontramos à superfície manchas que nos são familiares. Dos outros, só percebemos os mistérios que também são nossos. Em tudo o resto, estamos inefável e dramaticamente sós. Com uma pele opaca a isolar-nos.

6.10.05

Ufffff!!!!!!!

Acabaram as autárquicas!!!!!!!!

(... sim, ainda falta domingo, nada que uns quantos copos não façam esquecer...)